FILOSOFIA E PSICOLOGIA

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FILOSOFIA – 11º ANO

A crítica ao “cepticismo antecedente” de Descartes

“Existe uma espécie de cepticismo, antecedente a todo o tipo de estudo e filosofia, que é muito inculcada por Descartes e outros, como o preservativo soberano contra o erro e o juízo precipitado. Recomenda uma dúvida universal, não só de todas as nossas opiniões e princípios anteriores, mas também das nossas próprias faculdades, de cuja veracidade, dizem eles, nos devemos assegurar mediante uma cadeia de raciocínio, deduzida de algum princípio original que, possivelmente, não pode ser falaz ou enganador. Mas, não existe um tal princípio original, que tenha uma prerrogativa sobre os outros, que são auto-evidentes e convincentes; ou, se houvesse, não poderíamos avançar um passo para além dele, excepto mediante o uso das próprias faculdades, de que supostamente já desconfiámos. Por conseguinte, a dúvida cartesiana, se alguma vez fosse possível a criatura humana atingi-la (na realidade, não é), seria inteiramente incurável e nenhum raciocínio nos poderia introduzir num estado de certeza e convicção acerca de qualquer matéria.”

David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, XII, 116

 

 

 

 “[…] Eis aqui a principal objecção ao cepticismo excessivo (pirrónico): nenhum bem duradoiro pode alguma vez dele resultar, enquanto permanecer na sua plena força e vigor. […] Pelo contrário, ele deve reconhecer, se é que admite alguma coisa, que toda a vida humana teria de perecer, se os seus princípios prevalecessem de maneira universal e permanente.”

    David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, XII,128

 

 

 

Impressões e Ideias

“Podemos, pois, dividir aqui todas as percepções da mente em duas classes ou tipos, que se distinguem pelos seus diferentes graus de força e vivacidade. As menos intensas e vivas são designadas Pensamentos ou Ideias. O outro tipo, [...] chamemos-lhes Impressões [...]. Pelo termo impressão significo todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos. E as impressões distinguem-se das ideias, que são impressões menos intensas, das quais somos conscientes quando reflectimos sobre qualquer das sensações ou movimentos acima mencionados.”

David Hume , Investigação sobre o Entendimento Humano, P.12

 

 

 Os limites do entendimento humano.

 

            “Mas, embora o nosso pensamento pareça possuir esta liberdade irrestrita, veremos, num exame mais pormenorizado, que se encontra realmente confinado a limites muito estreitos e que todo esse poder criador da mente nada mais vem a ser do que a faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos são transmitidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, juntamos unicamente duas ideias consistentes, ouro e montanha, com as quais já estávamos familiarizados. [...] Em suma, todos os materiais do pensamento são derivados da sensibilidade externa ou interna: a mistura ou composição destes pertencem apenas à mente e à vontade. Ora, para me expressar em linguagem filosófica, todas as nossas ideias ou percepções mais fracas, são cópias das nossas impressões mais intensas.”

                                             David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, p. 13.

 

 

 

O conceito de causalidade e o problema da indução.

 

 “Todos os nossos raciocínios relativos à questão de facto parecem fundar-se na relação de causa e efeito. Só mediante esta relação podemos ir além do testemunho da nossa memória e dos nossos sentidos. [...] Todos os nossos raciocínios acerca de factos são da mesma natureza. E aqui supõe-se constantemente que existe uma conexão entre o facto presente e aquele que dele é inferido [...] O calor e a luz são efeitos colaterais do fogo, e um efeito pode justamente inferir-se a partir do outro. [...]

                Atrever-me-ia a afirmar, como uma proposição geral que não admite excepção, que o conhecimento desta relação não é, em circunstância alguma, obtido por raciocínios a priori, mas deriva inteiramente da experiência, ao descobrirmos que alguns objectos particulares se combinam constantemente uns com os outros. [...] Nenhum objecto descobre jamais pelas suas qualidades que aparecem aos sentidos, as causas que o produziram ou os efeitos que lhe derivarão; nem a nossa razão consegue alguma vez, sem ser assistida pela experiência, fazer uma inferência acerca da existência real e da questão de facto.

                Esta proposição, que as causas e os efeitos se podem descobrir, não pela razão, mas pela experiência será prontamente admitida em relação a tais objectos.”

                                               David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, p.33

 

 

O costume como fundamento da indução. A impossibilidade da Ciência.

 

                “Esta hipótese parece mesmo a única que explica a dificuldade de porque é que de mil casos tiramos uma inferência que não somos capazes de tirar de um único caso, o qual de nenhum modo é diferente daqueles. A razão é incapaz de uma tal variação. As conclusões que ela tira da consideração de um círculo são as mesmas que formaria após a inspecção de todos os círculos do universo. Mas nenhum homem, tendo visto unicamente um corpo mover-se depois de ser impelido por outro, poderia inferir que todos os corpos se moverão após um impulso semelhante. Por conseguinte, todas as inferências a partir da experiência são efeitos do costume, não do raciocínio.

                O costume, pois, é o grande guia da vida humana. Unicamente este princípio nos torna útil a experiência e nos faz esperar, para o futuro, uma série de eventos semelhantes àqueles que aparecem no passado. Sem a influência do costume, seríamos plenamente ignorantes em toda a questão de facto para além do que está imediatamente presente à memória e aos sentidos. Nunca saberíamos como ajustar os meios aos fins ou empregar as nossas potências naturais na produção de qualquer efeito. Dar-se-ia de imediato o termo de toda a acção e da principal parte da especulação.”

David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, pp. 49-50.

 

 

Questões

 

  1. 1.        O que leva Hume a dizer que, uma vez adoptada a dúvida cartesiana, nunca mais nos poderíamos ver livres dela? 
  2. 2.        Caracterize as impressões e as ideias como percepções da mente, explicando a relação que existe entre elas. 
  3. 3.        Qual é o critério de que dispomos, segundo Hume, para avaliar a verdade e validade das nossas ideias, das nossas crenças. 
  4. 4.        Em que sentido a perspectiva de Hume sobre o fundamento do conhecimento se opõe à de Descartes?
  5. 5.        O que leva Hume a afirmar que não existe conhecimento a priori do mundo?
  6. 6.        Quando é que uma verdade é contingente e quando é que é necessária? Dê exemplos.
  7. 7.        Que tipo de raciocínio usamos, de acordo com Hume, nos nossos argumentos sobre questões de facto?
  8. 8.        Em que consiste, segundo Hume, a causalidade?
  9. 9.        Explique o problema da indução, tal como foi exposto por Hume.

 

 

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