CRÍTICA: PROGRAMA/MANUAIS
Os manuais ficam-se, geralmente, por um senso comum esclarecido. Embora se critique o senso comum, grande parte do programa é apresentado exactamente neste nível.
Os alunos são levados a repetir a necessidade de ter um espírito crítico mas não são levados a efectivamente desenvolver esse espírito crítico proclamado como necessário. O aluno acaba por acreditar que a mera repetição de ideias superficiais e em grande medida reaccionárias já é o suficiente para considerar que tem espírito crítico.
Esvazia-se o “espírito crítico”. Este, deixa de ter a ver com a compreensão aprofundada e dialéctica das questões e passa a ter a ver, tão somente, com “estratégias pedagogicamente motivadoras e não directivas” de fazer passar as ideias burguesas (misturadas, muitas vezes, com o beatismo mais reaccionário).
10º ANO
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Há uma tendência para apresentar as concepções filosóficas de um modo descritivo. No máximo (e na melhor da hipóteses) são apresentadas algumas objecções existentes (o que já não é mau de todo).
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No tratamento da questão da liberdade, os autores caem, via de regra, na defesa do indeterminismo (embora, por vezes apresentem simultânea e eclecticamente, críticas ao mesmo indeterminismo que defendem).
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O termo “agnosticismo” é usado apenas no que diz respeito à religião (agnosticismo religioso) quando, na verdade, o termo tem um carácter mais geral (agnosticismo é a concepção segundo a qual não é possível conhecer a realidade como ela verdadeiramente é).
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A ética, a estética e a filosofia da política são apresentadas sob o espartilho da abordagem axiológica.
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A parte do programa dedicada à filosofia política é, quase sempre, de uma superficialidade doutrinária burguesa atroz. Os elogios à ordem burguesa atingem níveis que fariam corar de vergonha alguns ideólogos da própria burguesia. O Estado é praticamente sempre apresentado como a realização da moralidade. A perspectiva classista de sociedade e de estado é censurada pelos autores (que tanto apelam ao “espírito crítico”). A perspectiva burguesamente correcta é apresentada como a única perspectiva existente e possível.
11º ANO
A abordagem das questões mais gerais acerca do conhecimento é apresentada, erroneamente como uma abordagem necessariamente “fenomenológica“.
Nos manuais são utilizados vários conceitos acriticamente. Por exemplo, o conceito “dogmatismo” é usado no sentido kantiano, para caracterizar não apenas o racionalismo mas igualmente qualquer posição que pretenda conhecer a realidade objectiva, a realidade em-si. qualquer posição que pretenda superar os limites do agnosticismo kantiano é automaticamente caracterizada como “dogmática”. Há uma tendência falaciosa dos pensadores que tendem para o agnosticismo em afirmar que qualquer defesa da possibilidade do conhecimento é uma defesa do dogmatismo, o que não é verdade. Nos manuais esta tendência é frequentemente misturada, de modo confuso e eclético, com um tímido reconhecimento da existência de conhecimento e da verdade. Não há razão para que a negação da absolutização da verdade conduza obrigatoriamente à negação total da possibilidade do conhecimento, de toda e qualquer objectividade, não há razão para que a negação da absolutização da verdade conduza obrigatoriamente à absolutização do que no conhecimento é relativo, subjectivo e contingente. No entanto, é o que muitos autores de manuais de filosofia fazem.
A Dialéctica enquanto teoria do conhecimento, dialéctica e lógica é CENSURADA. Como se vê, a democracia burguesa é também democracia mas é uma democracia medida e domesticada, uma democracia q.b.
POPPER
A teoria de Popper é descrita e elogiada em quase todos os manuais sem que se avaliem as suas debilidades gnosiológicas. No máximo, é apresentada a posição de Kuhn, como se fosse a única objecção possível à superficial e anti-dialéctica abordagem Popperiana.
Mas as debilidades de Popper são imensas. Eis algumas:
- Popper confunde teorias com proposições de raciocínios elementares.
- tenta entender a dinâmica das teorias e a sua reformulação como uma mera sucessão de “falsificações” proposicionais, por Modus Tollens;
- Popper, embora reconheça que as teorias não são automaticamente abandonadas após a constatação de factos que pareçam negar uma das suas hipóteses, privilegia exactamente esta refutação global da teoria, uma vez que cai, como referido, numa quase identificação da teoria com a hipótese.
- Popper não percebe o alcance da função preditiva da teoria;
- Popper propõe reduzir a ciência a um caminhar por tentativa e erro;
- Popper separa e absolutiza o papel refutador da experiência (que ninguém nega) do seu papel nao apenas corroborador mas também impulsionador.
- Popper ao atacar a indução e os métodos verificacionistas não percebe a importância cognoscitiva destes que, embora não dêem certezas, podem aumentar a probabilidade da veracidade das teorias e inclusive refinar as teorias (uma vez que podem aparecer elementos que, não contradizendo a hipótese mais geral, não tinham sido considerados);
- Popper não percebe que a ciência não apenas confronta hipóteses com factos, mas trabalha ao nível da apreensão dos processos essenciais. Quando se afirma que o ser humano é mortal ou que os metais dilatam com o calor, estas afirmações não são conclusões de meras induções (por se ter visto muitos seres humanos morrerem e metais dilatarem com o calor) mas asserções que têm por base um conhecimento dos processos internos dos organismos vivos e da constituição da matéria.
- entende “factos” de um modo meramente atómico, discreto, não dialéctico;
- Popper não percebe que os factos, para serem considerados uma refutação da teoria, têm de ser considerados obrigatoriamente como, em certa medida, semelhantes aos que a corroboram (a hipótese, ao afirmar que todo x tem as características y pode considerar que o elemento que não tem essas características também não pertence ao conjunto dos x).
- reduz a interacção com a prática e o confronto da teoria com esta a uma simples experimentação ou constatação pontual;
- não percebe que até a astrologia pode apresentar hipóteses “falsificáveis”.
- Popper não percebe minimamente a relação entre a teoria e a prática no que diz respeito às ciências sociais, onde, por exemplo, a prática social pode substituir a experimentação.
- Popper não percebe como se formam as hipóteses científicas, apresentando-as como processos irracionais.
- Popper não percebe o verdadeiro significado gnosiológico da filosofia;
- As reaccionárias e idealistas posições de Popper são profundamente determinadas ideologicamente.
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